segunda-feira, 14 de maio de 2018

O país das cerejeiras, na TV


Por Sérgio Siscaro

Antes de mais nada, um aviso: não li o livro Xógum, de James Clavell, no qual a minissérie foi baseada. Portanto, considerações sobre os méritos da adaptação com relação ao material original estarão ausentes deste texto.

Shogun pode ser vista como um dos pontos altos da breve tendência da década de 1970 de as emissoras de TV norte-americanas produzirem minisséries com elevados valores de produção, baseadas em momentos marcantes da história. A primeira, claro, foi Raízes (1977), que recolocou na mídia a questão da escravidão nos EUA. Shogun aparece alguns anos depois (mais precisamente em 1980), com a ambição de mostrar o choque entre as culturas europeia e japonesa no início do século XVII em quase dez horas de narrativa.

É interessante notar que Shogun chegou às telas em um momento de transição do interesse dos norte-americanos pelo Extremo Oriente - que havia conquistado força no início da década de 1970 graças aos filmes de artes marciais da China. O momento seguinte seria após Shogun, quando os EUA passaram a ficar mais ansiosos com o crescimento econômico do Japão e passaram a trabalhar esse sentimento no cinema - com filmes de ninjas, dois Karate Kid e, no final dos 1980s, Chuva Negra.


Shogun narra a história do piloto inglês John Blacktorne (Richard Chamberlain, que depois ficaria conhecido pela série Pássaros Feridos), cujo navio Erasmus, a serviço dos Países Baixos, recém-libertos do jugo espanhol, encalha no Japão. Ele se vê em meio a dos conflitos – o seu com os padres da Companhia de Jesus, que mantém um lucrativo negócio de venda de sedas chinesas aos japoneses (e que reflete as tensões da época da Contrarreforma); e o do chefe militar Yoshi Toranaga (Toshiro Mifune), que combate outro daimio (senhor feudal), Ishido, pela supremacia do Japão. O personagem de Toranaga é baseado em Ieyasu Tokugawa, que se tornou o xogum, ou chefe militar, do Japão em 1600, fechando-o às influências do exterior por mais de duzentos anos. Em meio a esses conflitos há a história de amor entre Blacktorne e Mariko Toda (Yoko Shimada), convertida ao cristianismo e leal a Toranaga.

A série é datada em alguns pontos, mas até que envelheceu bem. Apesar de um certo didatismo e de um foco no lado “exótico” da cultura japonesa, a história funciona bem – apesar de a parte central ser muito mais dedicada à aclimatação de Blacktorne no Japão do que aos conflitos com os jesuítas ou com senhores feudais rivais de Toranaga. O roteiro é bem detalhado nesse sentido; os espectadores da série acabam aprendendo algumas noções básicas do idioma nipônico, além de ter uma boa noção do que era o Japão às vésperas da Batalha de Sekigahara (1600), que consolidou a recém-obtida unificação do país sob o regime Tokugawa, que perduraria até 1868. É estranho, contudo, ver o horror com que Blacktorne assiste a uma execução pública – afinal, na época, esse tipo de atividade era comum na Inglaterra, país de origem do personagem. O final sai do lugar-comum que poderia ser esperado em uma trama como essa, exibida nos EUA em horário nobre há quase 40 anos.



sexta-feira, 20 de abril de 2018

Le Chalet não empolga



Le Chalet equívoco do começo ao fim


Por Ana Lucia Venerando

Disponível desde o dia 17 de abril no Netflix,  Le Chalet não consegue nem mesmo se explicar a que veio. Composta por seis episódios, muitos deles com quase uma hora de duração, a série aposta no bom e velho roteiro em que amigos se reúnem após 20 anos afastados. Mas sem entusiasmar.

Várias circunstâncias  deixam o grupo isolado em um vilarejo nos alpes franceses. Logo começa o desaparecimento e a morte de muitos das personagens do chalé e de alguns dos moradores da pequena vila.

Exibida na França pelo canal France 2, Le Chalet usa com demasia flashbacks justamente nos momentos em que o telespectador começa a se habituar com o ritmo da história. Logo fica claro que tudo não passa de revanche do tipo: `a vingança é um prato que se come frio´.

Trata-se de uma fórmula já usada zilhões de vezes. Em muitos casos dá  certo. Neste, especificamente, não acontece. Mesmo com a boa atuação dos atores. Destaque para Nicolas Gob no papel de Sébastien Genesta.

Detalhe: a música de abertura é de cortar os pulsos com faca de manteiga.

terça-feira, 17 de abril de 2018

Nova versão de Perdidos no Espaço aposta em clima sombrio   



Perigo Will Robinson, perigo


Por Ana Lucia Venerando

Disponível no Netflix desde o dia 13 de abril, a nova versão de Perdidos no Espaço é um presente para o marmanjos e também uma boa diversão para a galera mais nova. Ícone dos anos 60, a série foi um marco importante para o gênero ficção científica. Até hoje, o pessoal mais velho tem lembranças dos desafios da família Robinson e das peripécias do malvado Dr. Zachary Smith.

Em 1998, foi lançado o filme com vários atores conhecidos como Willian Hurt, no papel  do patriarca da família (John Robinson), Mimi Rogers (Dra. Maureen Robinson), Gary Oldman (Dr. Smtih) e Matt LeBlanc ( Joey, de Friends,  como o Major Don West). O filme não agradou fãs e nem ao novo público.

Duas décadas depois, o Netflix lança a série com dez episódios. Assim como aconteceu com Stranger Things, é uma aposta da plataforma na memória afetiva do público.  A ideia, assim como na série-mãe, é a busca pela colonização de outro planeta. Mas traz importantes mudanças no roteiro.

A principal é o empoderamento das personagens femininas. E não dava para ser diferente. Impossível nos dias de hoje, ter uma Dra. Maureen submissa e resignada a preparar as refeições da família. Na nova versão, Molly Parker (House of Cards) encarna o papel de mãe, engenheira aeroespacial e de quem dá as cartas na Júpiter 2. John Robinson (Toby Stephens, de Black Sails) carrega a culpa de não ser um pai presente. Por isso, aceita as ordens da mulher. E não pelo fato de realmente ela ser a cabeça da operação.

Judith (Taylor Russel - Falling Skies) ganha confiança e coragem nesta nova versão. E Penny (Mina Sundwall - Amor Direito) é muito mais inteligente que sua antecessora dos anos 60. A grande surpresa é o papel do Dr. Smith. Agora é Dra. Smith, encarnada pela atriz Parker Posey (Superman, o Retorno). Posey dá um ar muito mais vil à personagem que tem como objetivo sempre se dar bem. Custe o que custar.

Outra mudança que funciona bem é o Robô. Claro que ele não deixou de falar a clássica frase: `Perigo, Will Smith.´ Só que agora ele é alienígena. Lembra um pouco os cilônios (aqueles da releitura de Battlestar Galactica) e também o bom e velho Alien. A amizade entre o Robô e Will Smith (Max Jenkins - Sense 8) continua intensa. Porém, é muito mais simbiótica e perigosa.

Ao contrário da série dos anos 60, os Robinsons não são os únicos terráqueos no desconhecido planeta. A Júpiter 2 é mais uma entre outras que fazem parte da Resolute -  estação espacial que levará os humanos para o idílico planeta Alpha Centaurus. Por sua vez, o mecânico Don West (Ignácio Serrichio - Privileged) encontra a família dias após a queda das naves.

Apesar de continuar a ser uma série para a família, os episódios são mais sombrios, com muita aventura e perrengues para a família Robinson se safar. Ótimos efeitos especiais e trilha sonora fantástica, com direito à música original. A série é uma prequel, que explica o encontro das personagens, para uma segunda temporada. Quem viver verá.


Produzida pela CBS, a série original tem três temporadas